Os dois palácios barrocos do Belvedere foram construídos pelo arquiteto Johann Lucas von Hildebrandt para o príncipe Eugênio de Saboia e ficaram prontos em 1723. A partir do fim do século XVIII, a galeria de pintura imperial ficava no Belvedere Superior, e em 1891 foi levada para o recém-construído Museu de História da Arte de Viena. O museu de hoje recomeçou do zero em maio de 1903, quando se abriu no Belvedere Inferior a Galeria Moderna. Quem a conseguiu foram Gustav Klimt e os artistas da Secessão de Viena, que nos anos anteriores tinham comprado quadros e os doado ao Estado.
Em 20 de março de 1938, oito dias depois da anexação da Áustria pela Alemanha nazista, o novo diretor, Bruno Grimschitz, fechou a seção de arte moderna da galeria, e as compras feitas sob a direção dele vinham de coleções tomadas dos judeus de Viena. Depois que a Áustria aprovou, em 1998, uma lei de restituição, o museu passou a investigar a procedência das suas obras. Pelas contas do próprio museu, dez quadros de Klimt foram devolvidos aos herdeiros dos antigos donos, entre eles o retrato dourado de Adele Bloch-Bauer, de 1907, que em 2006 foi comprado pela Neue Galerie de Nova York.
1. O Desposório de Maria — Michael Pacher
Bem no centro do painel as mãos se encontram: José e Maria uniram as mãos direitas, e o sumo sacerdote, de mitra alta cravejada de pedras, as segura por baixo e com a outra mão abençoa o casal. Nessa cena José costumava ser representado como um velho, mas em Pacher ele é um homem jovem, de cachos escuros e barba arruivada, e o enorme manto cor de cinábrio dele ocupa todo o terço esquerdo do painel. Na mão, José segura um bastão verde e fino que, segundo a tradição, floresceu e assim o apontou como o noivo escolhido. O bastão sai pela borda de cima, e todas as figuras são cortadas à esquerda, à direita e embaixo, mais ou menos na altura dos joelhos, porque o painel já foi mais que duas vezes maior.
Era uma das portas do retábulo-mor da igreja paroquial de Salzburgo, a atual Igreja Franciscana. A cidade encomendou o retábulo em 1484 a Michael Pacher, mestre de Bruneck, no Tirol do Sul, e pagou por ele 3.300 florins. Segundo fontes de Salzburgo, foi o maior e mais caro retábulo de portas da sua época. Pacher se mudou para Salzburgo em 1495 para terminar o trabalho e morreu lá em 1498.
Em 1709, o retábulo gótico foi substituído por um barroco, de Johann Bernhard Fischer von Erlach. Do antigo só ficou a Madona entronizada, esculpida em madeira, que àquela altura já era venerada como imagem milagrosa, e as outras partes do retábulo se dispersaram entre diferentes donos. Os historiadores não conseguiram estabelecer quando esta porta, pintada dos dois lados, foi recortada e serrada em duas no sentido da espessura. O verso virou um quadro à parte, A flagelação de Cristo, que também está no Belvedere. Outro fragmento do retábulo, a cena em que os irmãos jogam o José do Antigo Testamento num poço, foi encontrado em 1951 no próprio convento franciscano de Salzburgo.
2. Apoteose do príncipe Eugênio — Balthasar Permoser

O príncipe Eugênio de Saboia, o general que lutou contra os turcos a serviço dos Habsburgo, mantinha este grupo de mármore, em que ele mesmo aparece como Hércules, na sala de jantar dos oficiais da sua casa, no térreo da torre sudoeste do Belvedere Superior. Quem o esculpiu, em Dresden, foi Balthasar Permoser, escultor da corte do príncipe-eleitor da Saxônia, entre 1718 e 1721, pouco depois das vitórias de Eugênio sobre os turcos em Petrovaradin e em Belgrado. O museu considera que a encomenda foi do próprio Eugênio, embora um dicionário biográfico alemão de 1887 dissesse que não se sabia quem a tinha feito.
Eugênio está no centro, com uma armadura da época e uma peruca volumosa e cacheada, e por cima da armadura tem jogada uma pele de leão. À esquerda dele, numa longa diagonal, voa a Fama com uma trombeta, e o príncipe cobre a campânula com a palma da mão esquerda, como se a impedisse de proclamar os seus feitos. Debaixo dos pés dele está encolhido um prisioneiro turco. Segundo uma tradição, Permoser deu a esse turco o próprio rosto, e o museu admite essa possibilidade.
Eugênio nunca explicou por que pôs o grupo longe dos salões nobres. O museu propõe duas hipóteses: o mármore não pareceu ao príncipe antigo o bastante, ou ele o encomendou desde o início como monumento para depois da própria morte. Mesmo assim, o grupo de Permoser foi parar na folha de rosto de uma série de gravuras com vistas do Belvedere publicada por Salomon Kleiner. Depois da morte do príncipe, em 1736, o mármore ficou num canto do pátio entre o jardim e o palácio, em 1836 foi transferido para a sala do jardim, no térreo, para fazer par com uma estátua do imperador Carlos VI feita pelo escultor Georg Raphael Donner, e em 1922 foi levado para o Belvedere Inferior, para o recém-aberto Museu do Barroco.
3. Cabeças de caráter — Franz Xaver Messerschmidt

Em 1774, a Academia de Belas-Artes de Viena negou a cátedra ao escultor Franz Xaver Messerschmidt, embora ele tivesse substituído o professor de escultura durante cinco anos e antes disso tivesse feito bustos de Maria Teresa e do marido dela. O chanceler de Estado Kaunitz, a crer nos relatos que resumem a carta dele, escreveu à imperatriz que apreciava o talento de Messerschmidt e mencionou uma “confusão na cabeça” e um comportamento inconveniente. O escultor recusou a pensão que lhe ofereceram em lugar do cargo, saiu de Viena e em 1777 foi morar com o irmão em Pressburg, a atual Bratislava.
Ele começou as cabeças por volta de 1770 e continuou até morrer, em 1783, sem encomenda, para si mesmo. Os curadores do Belvedere acham que ele partia do próprio rosto e ia reunindo um repertório de expressões. O editor berlinense Friedrich Nicolai, que o visitou em 1781, contou que Messerschmidt se beliscava debaixo da costela e olhava no espelho a careta que resultava.
A cabeça número 33 é fundida numa liga de estanho e chumbo. Ela se encolhe contra o peito, de modo que o queixo some nas dobras do pescoço, os olhos estão apertados com força, com rugas que chegam às têmporas, o nariz está franzido, e a boca, cerrada numa linha, sobe nos cantos, o que pode ser tanto um sorriso contido quanto um esforço. O Belvedere a comprou em 1923, num leilão da casa Albert Kende, em Viena. Ao todo, o museu tem cerca de 16 cabeças, e algumas delas foram emprestadas pelos donos.
No século XX, as cabeças foram por muito tempo explicadas por uma doença mental do escultor, e o Belvedere, numa exposição de 2025, contestou essa leitura, pondo-as ao lado dos estudos sobre a expressão facial do século XVIII. Os nomes das cabeças surgiram só depois da morte de Messerschmidt. O irmão dele, Johann Adam, as comprou no leilão dos bens do falecido e por volta de 1791 as vendeu a Franz Strunz, dono de restaurante em Viena, e em novembro de 1793 Strunz expôs 49 cabeças no Bürgerspital, o grande asilo municipal, onde na época ele mantinha uma cozinha. Um folheto anônimo feito para a exposição deu um nome a cada cabeça. A número 33 foi chamada de “Um arquivilão”, e o museu até hoje cita esse apelido ao lado do número.
4. Bonaparte cruzando o Grande São Bernardo — Jacques-Louis David

O retrato do primeiro-cônsul Bonaparte pintado por Jacques-Louis David foi enviado de Paris a Milão em 1803, para o palácio da República Italiana, que a França então mantinha sob o seu controle. Em 1834, quando Milão já voltara a pertencer à Áustria, o quadro foi levado para Viena, para a galeria imperial, que na época ficava no Belvedere Superior. Foi assim que o retrato de gala de um inimigo recente dos Habsburgo foi parar no palácio do príncipe Eugênio. Quando a galeria se mudou, em 1891, para o novo Museu de História da Arte, o quadro foi junto, e até hoje pertence a esse museu, estando no Belvedere como empréstimo.
David e o seu ateliê pintaram cinco versões deste retrato (é assim que costumam ser contadas), e a de Viena é datada de 1801 ou 1802. Ela é reconhecida pelo manto vermelho-alaranjado e pelo cavalo tordilho rodado. O cavalo empina numa saliência coberta de neve, o manto se infla sobre o cavaleiro, e o próprio Bonaparte olha calmamente para o espectador e aponta para cima. Embaixo à esquerda, nas pedras, estão gravados três nomes: BONAPARTE, abaixo dele um ANNIBAL meio apagado e mais abaixo ainda KAROLVS MAGNVS IMP, ou seja, Aníbal e Carlos Magno, que também levaram exércitos através dos Alpes, e o nome de Bonaparte é o mais nítido dos três. Na realidade, em maio de 1800 ele atravessou o desfiladeiro montado numa mula, com um guia.
5. A manhã de Corpus Christi — Ferdinand Georg Waldmüller
Ferdinand Georg Waldmüller, curador da galeria de pintura da Academia de Belas-Artes de Viena, com o título de professor, enviou em 1857 ao ministro das Finanças, passando por cima dos seus superiores, um folheto sobre como reanimar a arte nacional. Já antes, em 1846 e 1849, ele tinha atacado por escrito o ensino da Academia e exigido que os alunos estudassem do natural em vez de copiar. Pelo folheto de 1857, o Estado o puniu com a aposentadoria a meio salário. Em 1864, o imperador lhe devolveu o salário integral e o reabilitou, e em 1865 Waldmüller morreu.
O quadro é datado desse mesmo ano de 1857. Desde 1912 está no museu, mas pertence à associação dos amigos do Belvedere, que naquele ano fez dele a sua primeira compra e o emprestou à galeria do Estado.
O sol da manhã bate no centro do pátio, em quatro meninas de vestidos brancos de musselina e coroas de flores, e é nelas que está a luz mais forte do quadro. À direita, um menino de casaco verde se afasta com uma vela alta, enfeitada com flores e fitas, e olha para trás com um sorriso largo. No primeiro plano estão crianças com roupa de todo dia, descalças. Uma menina está ajoelhada e estende uma pequena coroa, outra se agachou e tenta alcançar as flores nas mãos de uma amiga bem-vestida. Em 2021, numa exposição sobre a pobreza na pintura vienense do Biedermeier, o Belvedere explicou essa diferença sem rodeios: crianças descalças não iriam na procissão. À esquerda, afastado de todos, um velho de blusa azul está sentado num banco, de cabeça baixa, e junto ao muro, ao lado dele, uma menina aperta as costas da mão contra o olho.

6. Os cinco sentidos — Hans Makart
O barão Joseph Alexander von Helfert encomendou a Hans Makart cinco quadros para o seu apartamento no Parkring, um dos trechos da Ringstrasse de Viena. Em cada um há uma mulher nua de corpo inteiro e em tamanho natural, e cada tela tem mais de três metros de altura e é mais estreita que uma porta comum, porque os quadros iam ficar nos trechos de parede entre as janelas. Segundo o museu, eles nunca chegaram ao apartamento de Helfert, e o museu não diz por quê. Makart começou o ciclo em 1872 e o terminou no fim de 1879, nos anos em que era o pintor mais na moda de Viena.
No verso de A visão há a inscrição “pintado para H. O. Miethke, 1879” e uma ressalva sobre os direitos de reprodução. O marchand vienense Miethke publicou o ciclo em gravuras e levou os quadros a exposições em Dresden, Viena e Berlim. Os pesquisadores ainda não encontraram um documento que ligue a encomenda de Helfert a essa inscrição.
Das cinco telas, as mais expostas são A visão e A audição. Em A visão, a mulher segura junto ao ombro um pequeno espelho oval de moldura dourada, mas olha para o lado, e acima da cabeça dela se abre uma enorme folha de palmeira em leque, o único lugar da tela onde se vê o céu. Em A audição, ela se virou de perfil e levou os dedos ao ouvido. O museu descreve as cinco figuras como posições de um mesmo corpo que gira devagar.
O Estado comprou o ciclo de Miethke em 1901, no ano em que o imperador aprovou a criação de uma galeria estatal de arte moderna.
7. Primavera no Prater — Tina Blau
Em 1882, Tina Blau enviou à Primeira Exposição Internacional de Arte, no Künstlerhaus de Viena, a casa de exposições da principal associação de artistas da cidade, uma tela de cerca de dois metros de altura por três de largura. Eram as dimensões dos grandes quadros de salão da época, e Blau pintou nela o Prater, o grande parque de Viena, na primavera. Segundo uma história que todos os biógrafos dela repetem, o júri de seleção queria recusar o quadro: entre as telas escuras, no tom de galeria, ele era claro demais e, como se dizia no júri, abriria um buraco na parede. Hans Makart, autor de Os cinco sentidos, saiu em defesa do quadro, e ele foi pendurado, mas num canto. Em 1899 foi comprado para a galeria de pintura imperial.
A metade de cima da tela é ocupada por um céu azul-pálido com nuvens compridas. À direita estão árvores velhas e enormes, cujas copas nuas mal começam a se cobrir de uma folhagem amarelo-esverdeada e pálida, pelo caminho iluminado pelo sol vêm na direção do espectador uma senhora de sombrinha creme, uma senhora de vestido escuro e uma menininha, e à esquerda dois garotos de calça arregaçada estão descalços num remanso raso. O quadro é pintado em ocre, cor de palha e azul-pálido, e as únicas manchas escuras são os vestidos e os troncos.
As mulheres não eram aceitas então na Academia de Belas-Artes de Viena, e Blau estudou com professores particulares e depois em Munique. Em 1883, Primavera no Prater foi exposta no Salão de Paris, e ali, segundo a maioria das fontes, recebeu uma menção honrosa.
9. As más mães — Giovanni Segantini
Em 1901, os artistas da Secessão de Viena deram ao Estado um quadro de Giovanni Segantini que tinham comprado em conjunto com amantes da arte particulares. A Secessão foi fundada em 1897 por Klimt e os seus companheiros, que saíram do conservador Künstlerhaus, e desde então eles lutavam para que Viena tivesse uma galeria estatal de arte moderna. Quando ela foi inaugurada, em maio de 1903, As más mães estavam na primeira montagem. O próprio Segantini, que os secessionistas consideravam seu precursor, morreu nos Alpes em 1899.
No quadro há um vale coberto de neve ao pé das montanhas e uma única árvore nua e torta. Na forquilha do tronco está enredada uma mulher: a cabeça jogada para trás, os olhos fechados, os cabelos arruivados espalhados pelos galhos, e a parte de baixo do corpo envolta num pano escuro e rasgado que se transforma em casca. Junto ao seio dela está a cabecinha de um bebê que brota de um galho e mama, e de longe é fácil não perceber essa cabeça. Segantini pintou a tela inteira, a neve e o céu, com pinceladas finas e separadas, parecidas com fios.
Segantini tirou o tema do poema Nirvana, que o amigo dele, Luigi Illica, futuro libretista de Puccini, fazia passar por tradução de um antigo texto indiano. No poema, as mães que renunciaram à maternidade são arrastadas, como castigo, por um vale gelado até se reconciliarem com os filhos. A mãe de Segantini morreu quando ele tinha uns sete anos. Em 1911, o psicanalista berlinense Karl Abraham, discípulo de Freud, baseou nisso um ensaio psicanalítico sobre o pintor, publicado em Viena.

10. A Planície de Auvers — Vincent van Gogh
Em 2 de julho de 1890, Vincent van Gogh escreveu de Auvers-sur-Oise ao irmão, Theo, e à mulher dele sobre uma paisagem comprida de campos: um tema como o que escolheria o paisagista francês Georges Michel, só que em verde suave, amarelo e verde-azulado. A tela é duas vezes mais comprida que alta, o horizonte subiu quase até a borda de cima, e o céu ficou reduzido a uma faixa estreita e uniforme de turquesa. Abaixo dele se estendem retalhos de campos amarelo-pálidos, verde-claros e verde-azulados, cada um contornado de escuro, à esquerda há um grande monte de feno, e embaixo, no capim, se espalham pontinhos vermelhos e laranja de papoulas, a única nota quente do quadro. Menos de quatro semanas depois da carta, Van Gogh deu um tiro em si mesmo e morreu dois dias depois.
No começo de 1903, a Secessão de Viena montou uma exposição sobre a evolução do impressionismo, e na última seção dela, ao lado de Gauguin, Toulouse-Lautrec e Bonnard, estavam cinco quadros de Van Gogh. A Secessão comprou A Planície de Auvers nessa exposição para a nova galeria do Estado e a doou oficialmente em 1909. É uma das obras de Van Gogh que mais cedo entraram num museu. Viena comprava pouco dele, e até 1914 havia 13 quadros seus em coleções vienenses, contra 156 na Alemanha.
11. O cozinheiro (Tio Paul) — Claude Monet

Paul Graff, um alsaciano, tinha com a mulher, Eugénie, um hotel com restaurante em Pourville, perto de Dieppe, e em fevereiro de 1882 se hospedou ali Claude Monet, que tinha ido pintar as falésias e o mar da Normandia. Quando o tempo estava ruim, Monet trabalhava dentro de casa e pintou duas galettes, as tortas que davam fama à cozinha de Graff, a tímida Eugénie e o próprio dono, “um velho cozinheiro desgrenhado de gorro branco”, como o chamou Daniel Wildenstein, autor do catálogo das obras de Monet.
O gorro, alto e mole, tomba para a esquerda, e Monet o pintou com laçadas brancas rápidas, com lilás, azul-claro e rosa nas dobras, e com tinta tão diluída que através dela aparece a trama da tela. A parte mais empastada é a barba, uma massa emaranhada de pinceladas preto-azuladas, verde-garrafa e verde-oliva. Ela cobre o queixo e a boca, e o sorriso só se adivinha pelas bochechas. O fundo verde-menta foi aplicado com pinceladas largas, em círculo em volta da silhueta, e abaixo do peito o casaco branco está apenas esboçado.
Em março de 1883, Monet mostrou o retrato na sua exposição individual na galeria do marchand parisiense Paul Durand-Ruel, e no catálogo o sobrenome do dono saiu com erro, Graft. Em 1903, o quadro foi comprado na exposição do impressionismo da Secessão de Viena, a mesma em que a Secessão adquiriu A Planície de Auvers, e em maio estava na primeira montagem da Galeria Moderna. Nos registros do museu não consta quem pagou por ele, o ministério ou a Secessão. Dos outros dois quadros de Monet do Belvedere, um, Uma alameda no jardim de Monet em Giverny, entrou no museu por um caminho bem diferente, e só em 1942.
12. Judite — Gustav Klimt

A moldura de Judite foi feita pelo irmão mais novo de Gustav Klimt, Georg, cinzelador e gravador, e no travessão de cima está gravado em letras grandes “IVDITH”, abaixo “HOLOFERNES” e ao lado um pequeno “UND”. Os esboços da moldura aparecem no caderno vermelho de Klimt já em 1898, e ela estava pronta antes que o quadro fosse mostrado pela primeira vez, na décima exposição da Secessão de Viena, em março de 1901. O título, portanto, estava na moldura antes que alguém visse o quadro, e mesmo assim em Viena, Munique e Berlim chamavam a mulher do quadro de Salomé. “Ela é muito mais Salomé do que Judite”, escreveu em 1º de abril de 1901 o jornal Wiener Zeitung, e no catálogo da exposição de Berlim de 1905 o quadro figurava justamente assim, Salomé.
Klimt era a figura principal da Secessão e havia dois anos brigava com a Universidade de Viena por causa dos quadros para o teto do salão nobre dela: os professores protestavam contra A Filosofia, e A Medicina foi mostrada na mesma exposição que Judite.
Judite jogou a cabeça para trás e olha para o espectador por baixo de pálpebras pesadas, com os lábios entreabertos. Uma larga gargantilha de ouro envolve o pescoço, e as pedras azuis e vermelhas dela estão pintadas com tanta tinta que ficam em relevo sobre a superfície da tela. Atrás da cabeça há ouro, no qual aparecem árvores, montanhas e videiras, que o museu considera tiradas de um relevo do palácio do rei assírio Senaqueribe em Nínive. A cabeça de Holofernes só aparece no canto inferior direito. A mão de Judite, de dedos abertos, está pousada nos cabelos escuros dele, do rosto restaram um olho fechado e parte da bochecha, e o resto é cortado pela moldura.
Em 1901, o quadro foi comprado pelo médico vienense Anton Loew. Depois da morte dele, em 1907, ficou com a viúva, em 1920 foi vendido num leilão em Genebra por 3.750 francos e até 1954 pertenceu a Berthe Hodler, viúva do pintor suíço Ferdinand Hodler. Em 1954, a Galeria Austríaca comprou Judite de Berthe Hodler por 3.000 francos suíços.

13. O Beijo — Gustav Klimt

Em 10 de julho de 1908, o Ministério do Culto e da Instrução comprou de Gustav Klimt um quadro que na época se chamava Os amantes, direto da exposição Kunstschau. Klimt e o seu círculo organizaram essa exposição depois de terem saído da Secessão, em 1905. O ministério pagou 25.000 coroas, mais do que a Galeria Moderna jamais tinha pago a um artista vivo, e comprou o quadro inacabado. Numa nota interna do ministério consta que o canto inferior esquerdo ainda não estava terminado, e em 16 de julho Klimt respondeu do lago Attersee que terminaria Os amantes logo depois do encerramento da exposição. Ele levou a tela para o ateliê e só a entregou à galeria em 22 de julho de 1909. O quadro passou a se chamar O Beijo no outono daquele mesmo ano, num suplemento ao catálogo da Galeria Moderna.
O prado de florzinhas roxas, azuis, amarelas e brancas ocupa só a parte esquerda de baixo e termina numa borda brusca, depois da qual começa o fundo. Os pés descalços da mulher estão bem nessa borda, com os dedos dobrados para baixo. O fundo em volta do casal, Klimt cobriu com uma veladura escura de bronze oliváceo e, com ela ainda úmida, salpicou nela partículas metálicas.
Dá para ver o que Klimt mudou depois da venda comparando o quadro com as fotografias da exposição tiradas pelo fotógrafo Moriz Nähr. Nelas, as flores da parte esquerda do prado estão reunidas em tufos separados, que hoje se fundiram num tapete contínuo. A radiografia mostrou que Klimt, na mesma época, alinhou o padrão na barra do manto do homem e alongou em alguns centímetros as canelas da mulher.
14. Autorretrato rindo — Richard Gerstl

Em 4 de novembro de 1908, Richard Gerstl, de 25 anos, queimou cartas e papéis no seu ateliê e se matou diante do espelho. Ele era próximo do compositor Arnold Schoenberg, pintava junto com ele e lhe ensinava pintura, e em 1908 teve um caso com a mulher de Schoenberg, Mathilde, que acabou voltando para o marido. Em vida, Gerstl nunca expôs e se manteve longe das associações artísticas de Viena.
Depois da morte dele, os quadros ficaram guardados com a família, e em 1930 ou 1931 o irmão, Alois, os mostrou ao marchand vienense Otto Kallir. Em setembro de 1931, Kallir abriu na sua Neue Galerie a exposição “Richard Gerstl. O destino de um pintor”, e nos 23 anos anteriores ninguém além da família tinha visto as obras de Gerstl. A partir de 1938, os nazistas o incluíram entre os artistas “degenerados”, e até 1945 era proibido mostrá-lo. Em 1946, a Galeria Austríaca comprou o autorretrato da Neue Galerie.
No autorretrato, Gerstl ri com a boca bem aberta, a ponto de mostrar todos os dentes de cima, mas os olhos estão apertados e vidrados, e no Belvedere esse riso é descrito como mais ameaçador do que alegre. O fundo é todo coberto de pinceladas curtas marrons, verde-oliva e ocre e avança até encostar na cabeça. O rosto é pintado com laranja, vermelho e rosa quentes, em volta da boca e na barba por fazer há pinceladas amarelo-esverdeadas, e o pescoço se ergue como uma longa coluna amarelo-esverdeada.
O Belvedere data o retrato de 1908, o último ano da vida de Gerstl, enquanto os autores do catálogo das obras dele situam o autorretrato no verão de 1907, que ele passou em Gmunden, no lago Traunsee, perto da família de Schoenberg.
15. A morte e a donzela — Egon Schiele
Wally Neuzil era modelo e companheira de Egon Schiele desde 1911. No fim de 1914, ele começou a cortejar Edith Harms, que morava no prédio em frente ao ateliê dele, casou-se com ela em 17 de junho de 1915, e poucos dias depois foi convocado para o exército. Nesse mesmo ano de 1915 ele pintou este quadro. No Belvedere se considera que ele representa Wally e o próprio Schiele, embora o pintor chamasse a tela de Homem e moça e Pessoas entrelaçadas, e o título A morte e a donzela só apareceu mais tarde.
Os dois estão de joelhos sobre um enorme lençol branco amarrotado, jogado sobre uma terra pedregosa e parda. O homem, de hábito marrom-escuro, olha com olhos redondos e arregalados para além do espectador e para além da mulher e pousa na nuca dela uma mão de dedos longos e ossudos. Ela o envolve com os braços finos, e as duas mãos dela, de dedos abertos, estão espalmadas no peito dele. A barra do vestido curto dela, Schiele desenhou como os dentes agudos de uma serra, em traços cor-de-rosa, vermelhos e verde-claros.
O quadro foi comprado ainda em vida de Schiele pela Secessão de Munique, e na primavera de 1918 estava na grande exposição de Schiele na Secessão de Viena, onde o crítico Hermann Menkes o chamou de “um poema maravilhoso de fantasia, desenho e composição”. O museu o comprou da Secessão de Munique em 1930, 12 anos depois da morte do pintor. Wally Neuzil se formou enfermeira e morreu de escarlatina em dezembro de 1917 na cidadezinha dálmata de Sinj, para onde tinha sido mandada a serviço do exército.

16. Retrato da esposa do artista, Edith Schiele — Egon Schiele

Franz Martin Haberditzl, diretor da galeria do Estado desde 1915, comprou este retrato em 1918 do marchand vienense Gustav Nebehay, pouco depois da grande exposição de Schiele na Secessão, na primavera. Foi o primeiro quadro de Schiele comprado por um museu austríaco, e a compra foi feita com o pintor ainda vivo. Depois, Schiele repintou o vestido no retrato. Na ficha do Belvedere se lê que o diretor achou a saia xadrez colorida viva demais e parecida com artes aplicadas, e a pedido dele ela foi coberta com tons apagados. No Museu Leopold, em Viena, que reúne o maior número de obras de Schiele e guarda uma fotografia da primeira versão, escrevem com mais cautela que o motivo da mudança não foi estabelecido de forma definitiva.
Na fotografia antiga, Edith está sentada na mesma pose, com uma saia de quadrados grandes, numa poltrona de madeira bem visível, sobre um fundo claro com o chão embaixo. No quadro, a saia ficou branco-acinzentada, com veios pardos e verdes, no pescoço surgiu um laço preto de fitas longas com uma pequena borla vermelho-alaranjada, por baixo da barra apareceram botinas marrons, e a poltrona e o cômodo sumiram no fundo escuro. Em 2018, os restauradores do Belvedere fizeram, a partir de radiografias e imagens infravermelhas, uma reconstrução digital da primeira versão.
O Belvedere expõe os seus quadros de Schiele em rodízio, e este retrato nem sempre está nas salas. A fotografia do primeiro estado foi comprada pelo Museu Leopold em 2023.
17. Casal agachado (A Família) — Egon Schiele

Na tela quase quadrada, três figuras formam uma pirâmide contra um fundo marrom-escuro. No alto está agachado um homem nu com o rosto do próprio Schiele, de joelhos bem afastados, de modo que as pernas dele emolduram a mulher, e ele olha direto para o espectador. A mulher está sentada mais abaixo, é mais pálida e mais suave, com os olhos baixos e desviados para o lado, e entre os pés dela uma criança enrolada numa manta verde-escura olha de lado, para além dos dois adultos. Nenhum dos três olha para os outros.
O exame com infravermelho feito em 2018 mostrou que no início o homem apoiava o queixo na mão direita. Schiele baixou essa mão, e agora ela está erguida diante do peito, com a palma voltada para ele e os dedos abertos.
O próprio Schiele chamava o quadro de Casal agachado, e quem lhe deu o nome de A Família, depois da morte dele, foi Berta Zuckerkandl, jornalista vienense e anfitriã de um salão literário. A partir de 1918, o quadro pertenceu ao pintor Hans Böhler, de uma família de industriais do aço, e o museu o comprou dele em Nova York em 1948.
Edith Schiele estava grávida desde a primavera de 1918. Ela morreu de gripe espanhola em 28 de outubro, no sexto mês de gestação, Schiele morreu três dias depois, e o quadro ficou inacabado. A mão esquerda do homem, pendendo do joelho, está apenas indicada, e os cantos de baixo da tela estão só esboçados.
18. A Noiva — Gustav Klimt
Gustav Klimt morreu em 6 de fevereiro de 1918, depois de um derrame em janeiro, e no seu ateliê em Hietzing ficaram nos cavaletes vários quadros começados. Entre eles estava uma grande alegoria que só depois da morte dele recebeu o nome de A Noiva.
A metade esquerda da tela está terminada. Ali se amontoam figuras femininas nuas em tecidos vermelho-alaranjados de padrões coloridos, muitas de olhos fechados, bem junto à borda dorme um bebê, e no alto está um homem de laranja, o único de olhos abertos. Para ele inclina a cabeça a noiva, de duas longas tranças escuras, e em vez de corpo ela tem a coluna azul-escura de um vestido apenas começado. A metade direita ficou quase só tela nua. Nela há uma grande figura nua de pernas afastadas, com a cabeça apenas contornada a carvão, e sobre os quadris Klimt já pôs uma saia de triângulos, espirais e laços chapados amarelos, verdes, vermelhos e azuis, através dos quais se vê o corpo pintado por baixo. Klimt pintava primeiro a figura inteiramente nua e só depois a vestia de ornamento, e aqui o trabalho parou no meio.
O quadro pertence a uma fundação privada dedicada a Klimt, em Viena, e desde 2014 está no Belvedere como empréstimo. Depois da morte do pintor, ele passou à sua companheira e herdeira, Emilie Flöge, depois foi parar nas mãos do filho ilegítimo de Klimt, o cineasta Gustav Ucicky (por que caminho, a fundação não informa), e em 2013 a viúva de Ucicky, Ursula, o entregou à fundação que ela acabara de criar.

No último caderno de Klimt há mais de 40 esboços para este quadro, e em vários deles ele experimenta diferentes inclinações para a cabeça da figura da direita.
19. Uma alameda no jardim de Monet em Giverny — Claude Monet

O banqueiro berlinense Robert von Mendelssohn comprou este quadro em 1904 do marchand parisiense Durand-Ruel, e depois da morte dele, em 1917, o quadro passou para a viúva, a pianista italiana Giulietta von Mendelssohn. Em 1941, Giulietta, que morava na Itália, vendeu ao Reich a mansão da família no bairro berlinense de Grunewald, e intermediários de confiança levaram os quadros da coleção para Viena. Em 1942, a chancelaria do governador nazista em Viena comprou 32 obras por meio do marchand vienense Otto Schatzker e as distribuiu entre os museus. Um autorretrato de Rembrandt foi para o Museu de História da Arte, e a Galeria Austríaca recebeu cinco quadros de Corot, Degas, Manet e Monet, entre eles este. Em janeiro de 1943, a galeria o mostrou numa exposição das aquisições de 1942.
Monet pintou a alameda em 1902, no seu próprio jardim em Giverny, onde morava desde 1883. Um caminho de areia sai da borda de baixo, exatamente no meio da tela, e vai direto até a casa, da qual só se veem um pedaço rosa-avermelhado da fachada e uma porta escura, meio escondidos pela vegetação. Sobre a areia clara há manchas de sombra azuis e violeta, dos dois lados se erguem canteiros altos de ásteres, capuchinhas e dálias, e no alto as copas quase se fecham num túnel. Monet assinou “Claude Monet 02” com tinta vermelha, embaixo à direita, entre as flores vermelhas.
Em 2019, a procedência dos quadros da coleção Mendelssohn voltou a ser investigada, e em maio de 2023 o Conselho Consultivo de Restituição da Áustria recomendou não devolver Uma alameda, por entender que a venda não resultou de perseguição política nem de uma situação de penúria da vendedora.
20. Retrato de Amalie Zuckerkandl — Gustav Klimt

Amalie Zuckerkandl, filha do escritor vienense Sigmund Schlesinger, era mulher do cirurgião Otto Zuckerkandl, e em 1913 ou 1914 o marido encomendou a Klimt o retrato dela. O trabalho foi interrompido pela guerra, Klimt voltou a ele em 1917, e em fevereiro de 1918, quando o pintor morreu, o retrato ficou inacabado.
Só estão terminados a cabeça, o pescoço e os ombros nus: o rosto pálido de faces rosadas, a pequena boca vermelha, os cabelos escuros presos no alto, uma fita preta com renda branca na garganta. O fundo atrás de Amalie foi pintado de turquesa-menta, e tudo o que fica abaixo dos ombros ficou só na camada de preparação, com o desenho a lápis das dobras do xale, da mão e de um padrão de flores. Aqui e ali, sobre esse desenho, há manchas isoladas de rosa e azul-claro, como se Klimt tivesse começado a experimentar as cores. As imagens em infravermelho mostraram que a boca foi primeiro desenhada fechada e depois pintada levemente entreaberta.
Em 1919 os Zuckerkandl se divorciaram, o retrato ficou com Amalie, e nos anos 1920, precisando de dinheiro, ela o vendeu ao industrial do açúcar Ferdinand Bloch-Bauer, marido da Adele do retrato dourado. Ao partir para a Suíça, Bloch-Bauer devolveu o quadro à família sem cobrar nada, entregando-o à filha de Amalie, Hermine Müller-Hofmann. Em 1942, Hermine vendeu o retrato por 1.600 reichsmarks a Vita Künstler, que desde 1938 dirigia a Neue Galerie no lugar do emigrado Otto Kallir, o marchand que em 1931 tinha mostrado pela primeira vez os quadros de Gerstl. Nesse mesmo ano de 1942, Amalie foi deportada e assassinada. Em 1988, o retrato entrou na Galeria Austríaca como doação de Vita Maria e Gustav Künstler.
Depois, o retrato foi reivindicado por dois grupos de herdeiros, os de Ferdinand Bloch-Bauer e os de Hermine. A disputa foi examinada pela mesma comissão arbitral de três membros que, em janeiro de 2006, determinou a devolução do retrato de Adele aos Bloch-Bauer. Sobre Amalie, a comissão tomou em maio de 2006 uma decisão separada, segundo a qual nenhum dos dois grupos tinha direito ao quadro, e o retrato ficou em Viena. Em 1º de abril de 2008, a Suprema Corte da Áustria manteve essa decisão.
A Galeria Moderna foi inaugurada em 1903 em grande parte graças aos artistas da Secessão. Depois da anexação, o novo diretor comprava obras de coleções judaicas confiscadas. Desde 1998, o Belvedere investiga a procedência dessas aquisições. Em 2006, o museu devolveu cinco quadros de Klimt aos herdeiros Bloch-Bauer, e em 2008 a Suprema Corte manteve o retrato de Amalie Zuckerkandl na coleção do Estado.

O que mais ver
Pelas contas do próprio museu, o Belvedere tem 24 pinturas a óleo de Klimt, mais do que qualquer outro lugar do mundo, e numa segunda visita vale começar pelos retratos de Sonja Knips e Fritza Riedler e pelas paisagens do lago Attersee. Merecem atenção à parte os quadros de Oskar Kokoschka, o Biedermeier vienense, sobretudo o retrato de Rudolf von Arthaber com os filhos, de Friedrich von Amerling, e os dois quadros de Caspar David Friedrich. Outra obra de Klimt da coleção do Belvedere, o Friso de Beethoven, fica no prédio da Secessão.


























































