Em 1661, os herdeiros da família Amerbach, de Basileia, se preparavam para vender a coleção da família para Amsterdã. Ela reunia cerca de 50 quadros, 15 deles de Hans Holbein, o Jovem, além de desenhos, gravuras, moedas, cartas e uma biblioteca. Por conselho do burgomestre Johann Rudolf Wettstein, a cidade e a universidade decidiram comprar elas mesmas a coleção, por 9.000 táleres imperiais. O conselho municipal pagou dois terços da soma e a universidade o restante, e foi a universidade que ficou com a guarda da coleção, aberta ao público em 1671. Segundo o museu, é a mais antiga coleção pública de arte do mundo que pertence a uma cidade.
Os quadros de uma família passam a ser da cidade (1519–1661)

1. Retrato de Bonifacius Amerbach — Hans Holbein, o Jovem
Bonifacius Amerbach, filho mais novo do impressor Johann Amerbach, de Basileia, se preparava no outono de 1519 para ir a Avignon continuar os estudos de direito. A viagem era longa e havia peste no sul da França, e foi por isso, segundo o museu, que ele encomendou o retrato, para que a família ficasse com o seu rosto se ele morresse no caminho. Os versos latinos do retrato foram compostos pelo próprio Amerbach.
Holbein os pintou numa tabuleta de madeira pendurada no tronco de uma árvore, junto à borda esquerda do quadro. Os versos falam na voz do próprio retrato: o rosto pintado não fica atrás do vivo e se iguala ao seu senhor, e enquanto este vive oito triênios, isto é, 24 anos, a arte transmite no retrato o que a natureza lhe deu. Abaixo estão os nomes de Amerbach e de Holbein e a data, “na véspera dos idos de outubro” de 1519, ou seja, 14 de outubro, poucos dias depois de Amerbach completar 24 anos. A fotografia infravermelha mostrou que os versos foram corrigidos no próprio painel. O segundo verso terminava de início com as palavras “pintado com tintas”, e na versão final o retrato é chamado “nobre por suas linhas”.
O próprio Amerbach está virado quase de perfil para a tabuleta e olha além dela, para fora do quadro. O gorro preto e o manto preto se destacam contra o céu azul e frio, as partes mais quentes do quadro são o rosto e a barba castanho-arruivada, e embaixo à direita, sob um galho, aparecem pequenos picos nevados.
Holbein tinha então uns 22 anos. Já trabalhava havia alguns anos em Basileia, desenhando folhas de rosto e ilustrações para os impressores da cidade, e em 25 de setembro de 1519, menos de três semanas antes da data do retrato, foi admitido na guilda dos pintores de Basileia, a Zum Himmel, o que lhe dava o direito de ter oficina própria. Em 1526 partiu para a Inglaterra, voltou dois anos depois e, em 1532, mudou-se de vez para Londres.
Amerbach se doutorou em Avignon, ensinou direito romano em Basileia e se tornou o homem de maior confiança de Erasmo, que em 1536 o fez seu herdeiro. O retrato ficou na família, e o filho de Bonifacius, Basilius, reuniu em torno dos quadros e desenhos do pai uma verdadeira coleção, a mesma que a cidade comprou em 1661. A folha em que Bonifacius copiou e corrigiu umas 20 vezes o início dos seus versos está guardada na Biblioteca Universitária de Basileia, com livros e cartas da mesma coleção.

2. O corpo de Cristo morto no túmulo — Hans Holbein, o Jovem
Em agosto de 1867, Fiódor Dostoiévski e sua mulher, Anna Grigórievna, casados desde fevereiro, pararam por um dia em Basileia, a caminho de Genebra, para ver um quadro de que ele tinha ouvido falar. O quadro estava no prédio da Augustinergasse, inaugurado em 1849 para a coleção pública da cidade. Anna Grigórievna anotou no diário: “Querendo examiná-lo mais de perto, ele subiu numa cadeira, e eu tinha muito medo de que lhe cobrassem uma multa”. Nas memórias, escritas muito depois, ela contou que o quadro causou no marido uma “impressão esmagadora”. Ela mesma não conseguiu olhar e foi para outras salas, e quando voltou, uns 15 ou 20 minutos depois, encontrou-o no mesmo lugar, “como que pregado ali”, com aquela expressão assustada que ela conhecia dos primeiros minutos das crises epilépticas dele. Tomou-o pelo braço e o fez sentar num banco da sala vizinha. A crise não veio, e já na saída ele insistiu em voltar para ver o quadro mais uma vez.
O quadro mais famoso da coleção de Basileia foi pintado num painel muito comprido e baixo, e o corpo aparece em tamanho natural. Está sozinho num nicho de pedra estreito, sobre um lençol branco que pende da borda da laje. A cabeça, junto à borda esquerda, está jogada para trás, a boca aberta, o olho visível revirado, o rosto cinza-esverdeado nas sombras, e da laje pendem longos cabelos escuros. As costelas marcam a pele, e sob a ferida do flanco escurece um hematoma. A mão direita repousa ao longo da coxa com o dorso voltado para o espectador, com a ferida vermelho-escura do cravo, e o dedo médio se estende até a beira da laje. Na parede da extremidade, acima dos pés, “M.D.XXI” e “H.H” estão pintados como se tivessem sido gravados na pedra.
Segundo o museu, o quadro foi provavelmente encomendado por Bonifacius Amerbach (sobre ele e sobre Holbein, ver o nº 1) e ficou na família dele até a compra de 1661. Um estudo de 2021 mostrou que o nicho era de início menor e abobadado, e que Holbein o transformou numa caixa retangular e pintou de novo a assinatura e a data na nova parede. A data se lia primeiro MDXXII, e ao terminar o trabalho ele cobriu o último I com a cor da pedra.


Dostoiévski levou o quadro para o romance O idiota, publicado em capítulos entre 1868 e 1869. Uma cópia dele está pendurada na casa sombria de Rogójin, e o príncipe Míchkin, ao olhá-la, observa que diante de um quadro assim há quem possa até perder a fé. Mais adiante, outro personagem do romance, Hipólito, o descreve em detalhe e pergunta como puderam acreditar na ressurreição pessoas que viram um cadáver como aquele. Pelas contas do museu, o quadro aparece cinco vezes no romance.
3. Retrato da família do artista — Hans Holbein, o Jovem
O pintor Hans Asper, de Zurique, já era dono deste quadro em 1543, quando Holbein morreu em Londres, e não aceitava vendê-lo a ninguém, nem mesmo a Basilius Amerbach. A mulher de Holbein, Elsbeth, se desfez do quadro, mas os historiadores não encontraram documentos sobre como ele foi parar nas mãos de Asper. Basilius só o conseguiu depois da morte de Asper, em 1571, pagando seis coroas, por intermédio do boticário Georg Clauser, de Zurique, e segundo o museu o quadro entrou na coleção dos Amerbach em 1579.
Holbein pintou Elsbeth com os dois filhos mais velhos, Philipp e Katharina, por volta de 1528, ao voltar da primeira viagem à Inglaterra (sobre ele, ver o nº 1). Pintou sobre papel, e mais tarde as figuras foram recortadas pelo contorno e coladas num painel de tília. Elsbeth olha para baixo, além das crianças, com as pálpebras pesadas e avermelhadas e os cantos da boca caídos, e a mão direita dela, grande e pesada, está pousada no ombro do filho. Philipp, em perfil estrito, inclina a cabeça para trás e olha para cima e para a direita, e a pequena Katharina, no colo da mãe, também olha para a direita, para fora do quadro.

Parte dos pesquisadores acredita que o quadro era maior e que à direita talvez aparecesse o próprio Holbein diante do cavalete. Eles se apoiam no fato de que as duas crianças olham para a direita e na fotografia infravermelha, segundo a qual a cabeça de Philipp foi pintada primeiro em outro lugar. A borda do papel recortado se vê ao longo do contorno: em volta da touca de Elsbeth corre uma linha clara e fina, e os dedos da mão estendida de Katharina terminam num corte reto junto à borda direita. No banco avermelhado, no canto inferior direito, ficou “152”, e o último algarismo do ano se foi com a parte cortada.
4. Laís de Corinto — Hans Holbein, o Jovem
Ao longo da borda dianteira do parapeito de pedra cinza corre a inscrição “LAIS CORINTHIACA 1526”, o nome da famosa cortesã grega Laís de Corinto e o ano. A mão direita da jovem repousa no parapeito com a palma para cima e os dedos relaxados, ao lado de um montinho de moedas de ouro, e uma moeda está separada das outras. A mulher olha para baixo, na direção da palma aberta. Veste um corpete de veludo vermelho com fendas por onde sai o linho branco e enormes mangas de seda ocre-alaranjadas, tem uma rede dourada nos cabelos, e atrás dela pende uma pesada cortina verde. Holbein pintou o painel em Basileia em 1526, o ano em que partiu para a Inglaterra (sobre ele, ver o nº 1).
Segundo a tradição, Laís foi amante de Apeles, o pintor mais famoso da Antiguidade, e os humanistas de Basileia chamavam Holbein de “Apeles”. Daí vem uma interpretação que alguns historiadores da arte defendem, a de que o quadro trata da própria pintura e de que a beleza tem de ser paga com generosidade.
O nome de quem posou para Holbein vem de uma única linha. Basilius Amerbach anotou no inventário da coleção, nos anos 1580, uns 60 anos depois de o painel ser pintado, que em dois painéis pequenos estava representada uma mulher da família Offenburg e que num deles estava escrito “Lais Corinthiaca”. Os Offenburg eram uma família de Basileia, e desde então se considera modelo ora a viúva Magdalena Offenburg, ora a filha dela, Dorothea, embora, fora essa anotação, nada as ligue ao quadro. Mais tarde surgiu a lenda, sem nenhuma confirmação, de que Magdalena teria sido amante de Holbein.
O segundo painel da mesma anotação, Vênus e Cupido, também está em Basileia. O historiador da arte Jochen Sander concluiu, a partir de um exame técnico, que se trata de uma repetição da Laís pintada por um ajudante da oficina, que transferiu os contornos dela invertidos, como num espelho, e mudou a posição da mão.
O conselho recusa a oferta do príncipe-eleitor (1529–1771)

5. A Paixão de Cristo — Hans Holbein, o Jovem
Em 4 de outubro de 1641, o Pequeno Conselho de Basileia disse não ao enviado do príncipe-eleitor Maximiliano I da Baviera, que tinha vindo comprar da cidade as oito cenas da Paixão de Cristo pintadas por Holbein. Segundo a ata, o enviado foi despedido “com toda a amabilidade”, recebeu vinho e ganhou uma escolta. O viajante francês Charles Patin escreveu mais tarde, em 1673, que o eleitor tinha oferecido 30.000 florins pelos painéis. O pintor Joachim von Sandrart, que fez o retrato de Maximiliano, contou no seu livro de 1675 que ele mesmo tinha elogiado os painéis ao eleitor durante as sessões de pose, que o enviado conduziu o negócio sem habilidade e que, depois da recusa, a cidade ficou ainda mais convencida do valor deles.
Holbein (sobre ele, ver o nº 1) os pintou em meados da década de 1520 como as faces externas das portas de um retábulo entalhado, provavelmente para a catedral de Basileia. O entalhe que as portas cobriam não se conservou, e elas mesmas foram parar, muito provavelmente, na prefeitura em 1529, quando as imagens das igrejas de Basileia foram destruídas. Os painéis do meio são mais altos que os das pontas, de modo que o alto da moldura comum sobe em degraus para o centro, repetindo o contorno do retábulo perdido. Cada painel tem duas cenas, uma sobre a outra, separadas por uma faixa de ornamento dourado. As três primeiras cenas da fileira de cima são noturnas: a oração no horto, a prisão e Cristo diante de Caifás, e nelas a luz vem de tochas e de fogo dentro do próprio quadro. Na segunda, Judas, de amarelo, beija Cristo no meio de uma multidão com tochas e alabardas, e embaixo à esquerda Pedro, de barba grisalha, ergue a lâmina sobre Malco caído. Os soldados usam armaduras e calções com fendas como os que se usavam nos anos 1520, e a arquitetura em volta é italiana. Sandrart elogiou nesses painéis a compreensão da “luz do dia e da noite”.
Em 1770, o conselho entregou as portas à coleção pública, então administrada pela universidade, como presente do governo de Basileia. Em 1771, a universidade encarregou o pintor Johann Nikolaus Grooth, natural de Stuttgart, que trabalhava em Basileia como retratista, de limpar os painéis e reparar os danos, e desde então, ao que parece, as oito cenas estão reunidas numa só moldura. A partir de meados do século XIX, Grooth foi acusado de ter arruinado a pintura. Em 1997, o historiador da arte Bernd Lindemann examinou os painéis e não encontrou vestígios de repintura posterior, de modo que a superfície lisa e uniforme pela qual Grooth era criticado é do próprio Holbein.

Os herdeiros perdem na justiça (1667–1823)

6. A morte e a donzela — Hans Baldung Grien
O jurista Remigius Faesch, de Basileia, professor de direito e três vezes reitor da universidade, reuniu o segundo grande gabinete particular da cidade, com quadros, moedas, livros, gravuras e desenhos, e este painel de Baldung já era dele em vida. Morreu solteiro em 1667 e deixou em testamento que a coleção ficasse na família enquanto houvesse um descendente doutor em direito para administrá-la.
Baldung, que na juventude tinha sido ajudante na oficina de Dürer em Nuremberg, pôs no painel o ano de 1517, quando voltou a Estrasburgo depois de quase cinco anos de trabalho no retábulo-mor da catedral de Friburgo, na Brisgóvia. No alto, em letras douradas, está escrito “HIE MVST DV YN”, “Aqui tens de entrar”. A Morte aparece aqui como um cadáver pardo, coriáceo, meio apodrecido, de crânio nu, órbitas vazias e um buraco esfarrapado nas costelas. O morto está atrás do ombro direito da moça e segura no punho uma mecha dos cabelos arruivados dela, e os cabelos escorrem para baixo e se confundem com os farrapos de carne da perna dele. A moça, pálida e nua, chora, com os olhos revirados e lágrimas descendo pelo rosto, e aperta as mãos entrelaçadas contra o antebraço ossudo dele, como se suplicasse ao próprio morto. Com a outra mão ele aponta para baixo, segundo a descrição do museu, para uma cova aberta. O véu transparente sobre os quadris dela foi pintado com algumas linhas brancas e não cobre nada.
A universidade tentou mais de uma vez obter a coleção Faesch, e o pretexto apareceu quando o administrador passou a ser Johann Jakob Faesch, jurista sem doutorado. Em Basileia ele não podia se doutorar, porque a cátedra de direito estava vaga. A primeira instância deu ganho de causa à família. Em 1823, o tribunal de apelação tirou a coleção dos Faesch e a entregou à universidade, sem levar em conta que o herdeiro, nesse meio-tempo, tinha se doutorado em direito em Friburgo, na Brisgóvia.
O museu encontra o nome do pintor (anos 1890)

7. A Sinagoga (retábulo do Espelho da Salvação) — Konrad Witz
Até meados da década de 1890, os painéis deste retábulo que estão em Basileia eram atribuídos à “escola de Geertgen tot Sint Jans”, pintor neerlandês de Haarlem. O nome do verdadeiro autor já tinha sido lido nessa época, só que em Genebra: na moldura do retábulo genebrino de 1444 está escrito “Conradus Sapientis de Basilea”, a forma latina do nome de Konrad Witz, de Basileia, e em 1845 o pesquisador genebrino Blavignac leu essa inscrição e supôs que ela trazia o nome do pintor. Ninguém a relacionou com Basileia. Em meados da década de 1890, o conservador da coleção de Basileia, Daniel Burckhardt, e o genebrino Jaques Mayor perceberam que as portas de Genebra e os painéis de Basileia eram da mesma mão. Mayor publicou a descoberta em 1896, e Burckhardt em 1901. O retábulo de Basileia não tem assinatura, e o museu, pela semelhança com o de Genebra, considera a autoria de Witz muito provável.

Acredita-se que o retábulo foi pintado por volta de 1435 para a igreja de São Leonardo, em Basileia, e a Sinagoga fazia parte da face externa da porta direita. Uma jovem está de pé num cômodo de pedra vazio, de paredes cinzentas, com um enorme vestido amarelo-ácido que cai no chão em dobras quebradas. Tem os olhos fechados, e sobre eles passa uma venda transparente, pintada com algumas linhas brancas finas, fácil de não perceber. O rosto é cor de giz, a cabeça está baixa. Encostadas ao ombro direito estão duas Tábuas da Lei de pedra cinza, e com a mão direita ela as segura por baixo, na altura da cintura. As letras nas tábuas parecem hebraicas, mas o museu as chama de “hebraico de fantasia”. Com a mão esquerda ela segura uma haste dourada fina, quebrada perto do alto, com uma bandeirola vermelha, e junto à borda direita, numa abertura, aparece uma faixa de azul intenso.
A venda nos olhos, a lança quebrada e as tábuas escorregando eram atributos comuns da Sinagoga na arte medieval, que a punha em par com a Igreja e assim representava os judeus que não reconheceram Cristo. Witz manteve todos esses atributos e pintou uma jovem elegante, da mesma altura e porte que a Igreja do painel que forma par com este, de manto vermelho, olhos abertos, cálice e cruz.
A Sinagoga foi doada ao museu em 1843 pelo colecionador Peter Vischer-Passavant, de Basileia, e os outros painéis também chegaram no século XIX como doações de famílias da cidade. A Igreja foi comprada pelo museu em 1928 com dinheiro do governo, de duas fundações e de muitos amantes da arte, e o anjo da Anunciação está no museu desde esse mesmo ano como depósito da Fundação Gottfried Keller (sobre a fundação, ver o nº 8). Das 14 partes conservadas do retábulo, nove estão em Basileia. Em algum momento o retábulo foi desmontado, e os painéis foram serrados na espessura, separando as faces da frente das de trás, de modo que o verso da Sinagoga virou um quadro à parte, A rainha de Sabá diante de Salomão, que está em Berlim.
A Confederação compra o quadro de um pintor de Basileia (1920)
8. A ilha dos mortos (primeira versão) — Arnold Böcklin
Böcklin, nascido em Basileia e então morando em Florença, pintou este quadro na primavera de 1880 para o seu mecenas Alexander Günther, mas não o entregou a Günther. Quando a tela ainda estava inacabada, a viúva de um financista, Marie Berna, apareceu no ateliê e pediu o quadro “para sonhar”, e para ela Böcklin pintou uma segunda versão, que está no Metropolitan Museum de Nova York. Ao todo são cinco versões.
A ilha ocupa a faixa do meio da tela larga, com um céu noturno escuro e vazio por cima e uma água lisa, quase preta, por baixo. Dois rochedos iluminados por uma luz quente, castanho-dourada, se abrem para os lados, entre eles se erguem altos ciprestes negros, e nas rochas foram talhadas entradas retangulares de câmaras funerárias. Um barquinho segue na direção de um cais branco entre os rochedos. Numa das pontas está sentado um remador vestido de escuro, atrás dele está de pé uma figura envolta da cabeça aos pés num branco luminoso, de costas para o espectador, e na outra ponta, à direita, há um caixão coberto por um pano branco. No canto inferior esquerdo, na água escura, mal se vê o monograma “AB”.
Em 1920, o quadro foi comprado pela Fundação Gottfried Keller. A fundação foi criada em 1890 com recursos que Lydia Welti-Escher doou à Confederação Suíça e recebeu o nome do poeta Gottfried Keller. As compras são decididas por uma comissão nomeada pelo Conselho Federal, e a fundação deposita as obras compradas em museus suíços, muitas vezes nos lugares de onde elas vieram. A dona da Ilha dos mortos é a fundação, ou seja, a Confederação, e o Kunstmuseum de Basileia guarda o quadro como depósito desde 1920.
Os primeiros quadros modernos (1931–1937)

9. Senecio — Paul Klee
Quase todo o quadro é ocupado por uma cabeça redonda sobre um pescoço curto, e o rosto se divide em áreas chapadas de cor: a metade direita do crânio em amarelo-pálido, uma faixa rosa atravessando as duas bochechas, quadrados brancos, creme e amarelos no queixo. Os olhos são contornados por uma única linha fina que se cruza sobre a raiz do nariz formando um oito, as pupilas são círculos chapados vermelho-escuros, e o olho esquerdo fica mais alto que o direito. Sobre o olho esquerdo há um triângulo branco pontudo, sobre o direito um arco verde-escuro, de modo que uma sobrancelha parece erguida. A boca são dois quadradinhos violeta-escuros, um deslocado em relação ao outro. A tinta é fina, e através dela aparecem o preparo de giz e a trama da gaze colada no papelão, sobretudo no branco dos olhos.
Em latim, senecio é o nome da tasneira, uma erva daninha cujas cabeças de sementes, brancas e felpudas, lembram uma cabeça grisalha, e o próprio nome da planta vem da palavra latina para “velho”. No seu catálogo, Klee deu ao quadro também um título alemão, “Baldgreis”, que quer dizer mais ou menos “velho em breve”. Junto à borda esquerda ele escreveu “KLEE” e, embaixo, “1922 /// 181”, o ano e o número no seu próprio catálogo.
Klee nasceu em 1879 perto de Berna, mas, como o pai era alemão, manteve a vida inteira a cidadania alemã. A partir de 1921 lecionou na Bauhaus e pintou Senecio em Weimar, no segundo ano em que trabalhava lá. Em 1933 os nazistas o demitiram da Academia de Düsseldorf, e no fim daquele mesmo ano ele se mudou para Berna. Em 1937 suas obras foram retiradas dos museus alemães (de uma delas, Villa R, se fala no nº 13). Em 1939 Klee pediu a cidadania suíça e morreu em 29 de junho de 1940 sem chegar a ser suíço.
O museu comprou Senecio em 1931 dos marchands Günther e Sophie Franke, de Munique. Junto com Íris azuis I, de Emil Nolde, foram dos primeiros quadros modernos da coleção, e no novo prédio principal do museu, inaugurado em 1936, quase não havia arte moderna além deles e de algumas outras obras.


10. Marguerite Gachet ao piano — Vincent van Gogh
Por mais de 40 anos este quadro ficou pendurado no quarto de Marguerite Gachet, na casa do pai dela, o doutor Paul Gachet, em Auvers-sur-Oise. Em 1934, dois membros da Comissão de Arte do museu de Basileia, o diretor Otto Fischer e o colecionador Rudolf Staechelin, foram a Auvers para vê-lo na casa dos Gachet, e no mesmo ano o museu o comprou.
Van Gogh chegou a Auvers em maio de 1890 para morar perto do doutor Gachet, pintou a filha dele no verão daquele ano e morreu no fim de julho. Numa carta ao irmão, Theo, enumerou as cores: “O vestido é rosa. A parede do fundo é verde com pontos laranja, o tapete é vermelho com pontos verdes, o piano é violeta-escuro”. A tela é estreita, duas vezes mais alta que larga. Marguerite está sentada de perfil, inclinada sobre o teclado, com o cabelo preso num coque, o piano é cortado pela borda esquerda, e sobre ele há partituras e uma vela apagada. Os pontos laranja cobrem a parede até o meio da tela, e embaixo à direita fica o tapete vermelho com traços verdes curtos.
O vermelho do vestido desbotou com o tempo, e o vestido rosa parece quase branco, com pinceladas verde-pálidas e amarelas, entre as quais aqui e ali se veem veios vermelho-rosados.

11. Retrato do presidente do Reich Friedrich Ebert — Lovis Corinth
O dinheiro para este retrato veio em 1937 dos sindicatos e do departamento de educação do cantão de Basileia-Cidade, e quem o comprou da viúva de Lovis Corinth foi o diretor do museu, Otto Fischer. Na Comissão de Arte, segundo o museu, a compra foi recebida com “forte desaprovação”, e para fazê-la passar foi preciso o voto do próprio Fischer. No mesmo ano, os quadros de Corinth começaram a ser retirados dos museus alemães (ver o nº 15).
Ebert, social-democrata, era então presidente do Reich alemão, e Corinth o pintou em março de 1924 no apartamento dele em Berlim. O pintor queria retratá-lo sentado, mas Ebert recusou, dizendo que já tivera uma experiência ruim com essa pose, e Corinth o pintou de pé. Na autobiografia, lembrou que a cabeça de Ebert o atraíra pela sua “interessante feiura”. Ebert está quase de frente e olha direto para o espectador. A luz de uma janela com cortinas de tule, junto à borda esquerda, cai sobre metade do rosto, e a outra metade se perde numa sombra marrom. No lado iluminado, o terno escuro de abotoamento duplo é pintado com faixas vivas de ultramar e azul-violeta, a mão direita pende diante do paletó, a esquerda está apoiada no quadril, e as pernas, no terço inferior da tela, estão apenas esboçadas. No canto superior direito, na parede, está escrito “Lovis Corinth / im März 1924”.
Corinth tinha então 65 anos. Em dezembro de 1911, um derrame o deixara parcialmente paralisado, mas ele continuou pintando. Morreu em julho de 1925.
Verão de 1939: compras nos depósitos do Reich
12. O destino dos animais — Franz Marc
O terço direito desta tela queimou no inverno de 1916–1917, no depósito de uma transportadora de obras de arte de Berlim, onde o quadro estava guardado depois da exposição póstuma de Marc na galeria berlinense Der Sturm. O próprio Marc tinha sido morto perto de Verdun em 4 de março de 1916. Um ano antes de morrer, ao receber no front um cartão-postal com a reprodução deste quadro, ele escreveu à mulher, Maria: “É como um pressentimento desta guerra, horrível e comovente, mal consigo acreditar que fui eu que pintei isto!”
Marc pintou o quadro na primavera de 1913 e de início o chamou “As árvores mostravam seus anéis, os animais suas veias”. Antes da primeira exposição mudou o título a conselho de um amigo, Paul Klee (sobre ele, ver o nº 9), e em 1919 Klee reconstituiu a parte queimada a partir de uma aquarela preparatória e de fotografias. O museu escreve que, usando tons visivelmente mais escuros, ele deixou a perda à vista. Nos dois terços da esquerda, pintados por Marc, a tela é atravessada por diagonais, do alto em direção à borda direita cai um enorme tronco castanho-avermelhado, no centro empina um cervo azul com a cabeça jogada para trás, e mais à esquerda há duas cabeças verdes de cavalo com a boca aberta. Embaixo delas há um triângulo branco com finas veias vermelhas, as próprias “veias” do primeiro título, e junto à borda esquerda se vê a seção de um tronco cortado, com os anéis. O terço direito, pintado por Klee, é turvo, castanho-oliva, com linhas vermelhas e cinza-esverdeadas pálidas, e a fronteira entre ele e as cores saturadas de Marc é irregular como uma borda queimada.
Depois da morte de Marc, o quadro ficou com a viúva, em 1930 foi comprado pelo museu municipal de Halle, em 1937 o Ministério da Propaganda do Reich o confiscou como “arte degenerada”, e em 1938 ele foi mandado para o depósito no palácio de Schönhausen, em Berlim, para onde se levavam as obras que, na opinião das autoridades, podiam ser vendidas no exterior. No verão de 1939, Basileia comprou 21 obras saídas de museus alemães, oito no leilão da galeria de Theodor Fischer em Lucerna, em 30 de junho, e 13 por meio dos marchands berlinenses Karl Buchholz e Hildebrand Gurlitt, e pagou por elas com um crédito especial de 50.000 francos do cantão. Em julho, o novo diretor do museu, Georg Schmidt, escreveu ao crítico Paul Westheim que tudo aquilo lhe parecia um conto de fadas, “se ao menos as circunstâncias que levaram a isso não fossem tão dolorosamente reais e brutais”. O destino dos animais foi a primeira dessas compras. Schmidt viu o quadro no depósito de Schönhausen em maio e acertou a compra antes mesmo de o cantão aprovar o crédito. Num telegrama de 10 de maio de 1939, ofereceu 6.000 francos a Gurlitt, que o vendia em nome do ministério, e acabou pagando 6.900.


13. Villa R — Paul Klee
Pauline Kowarzik, pintora e colecionadora de Frankfurt, comprou este quadro em novembro de 1919, no mesmo ano em que Klee o pintou. Em 1916 ela tinha se tornado a primeira mulher a integrar a comissão de compras da Galeria Municipal de Frankfurt. Em 1926, arruinada pela inflação, Kowarzik vendeu a essa galeria, que funcionava no Städel, quase toda a sua coleção de arte moderna, 34 obras, em troca de uma pensão vitalícia. Em agosto de 1937, Villa R foi retirada do Städel.
O quadro é pequeno e noturno, sobre um fundo quase preto. À esquerda do centro está a vila, feita de blocos chapados, brancos, rosados, azul-frios e violeta, com uma janela grande dividida em quadrados vermelho-escuros. Uma larga estrada vermelha entra por baixo, à esquerda, passa diante da casa e, estreitando-se, sobe até a borda direita. Na estrada, à direita da casa, ergue-se uma grande letra R verde-acinzentada, com serifas, do mesmo verde baço das colinas. No canto superior esquerdo há um semicírculo verde, no direito uma lua cheia amarela. Segundo o museu, é um dos primeiros quadros a óleo de Klee, que até então trabalhara por muito tempo só sobre papel. No mesmo ano ele pintou Cidade R, com uma grande letra preta, e o museu Lenbachhaus, de Munique, onde está esse quadro, considera cifrado o sentido da letra.
Em 30 de junho de 1939, a galeria de Theodor Fischer pôs em leilão em Lucerna 125 obras retiradas de museus alemães, e 86 delas foram para coleções fora da Alemanha. A delegação de Basileia não pretendia disputar Villa R, que constava do catálogo com o número 59 como “Casa à beira da estrada”, e a comprou com o dinheiro que sobrou das compras planejadas. Dos quadros a óleo de Klee, só dois foram a esse leilão, Villa R e Jardim do mosteiro, e Jardim do mosteiro queimou em 1940.


14. Autorretrato seminua com colar de âmbar II — Paula Modersohn-Becker
Em fevereiro de 1906, Paula Modersohn-Becker deixou o marido, o pintor Otto Modersohn, saiu da colônia de artistas de Worpswede, perto de Bremen, e foi trabalhar sozinha em Paris. Nesse ano pintou cerca de 15 autorretratos. Para alguns deles posou nua para fotografias, tiradas, ao que parece, pela irmã, Herma, e este autorretrato, segundo o museu, foi pintado a partir de uma fotografia. O museu o considera um dos primeiros autorretratos nus da história e supõe que muito provavelmente ela não pretendia mostrá-lo ao público.
Ela olha para o espectador com grandes olhos escuros, a cabeça um pouco inclinada, os lábios firmes, de um vermelho vivo, num sorriso pequeno e contido. Tem três flores rosadas no cabelo. O colar comprido de grandes contas de âmbar é pintado como círculos chapados ocre-mostarda e pende em forma de ferradura abaixo dos seios. Com a mão direita erguida, ela segura com as pontas dos dedos uma flor rosa de caule curto, o braço esquerdo atravessa o corpo, e a mão se dobra bruscamente para cima. Atrás dela há caules densos azul-escuros, com folhas, sobre um fundo cinza-azulado pálido. O museu vê aqui a influência dos antigos retratos de múmia, frontais, de olhos grandes, com uma flor na mão.
Na primavera de 1907 ela voltou com o marido para Worpswede, em 2 de novembro deu à luz uma filha e em 20 de novembro morreu, aos 31 anos. O autorretrato foi exposto pela primeira vez em 1913, e no mesmo ano o colecionador Herbert von Garvens-Garvensburg, de Hanôver, o comprou. Em 1928 o Museu Kestner, de Hanôver, comprou o quadro dele, e em 1937 o quadro foi retirado de lá.

Em Lucerna, em 30 de junho de 1939, o autorretrato foi a leilão com o número 97. Na véspera do leilão, o cantão aprovou 50.000 dos 100.000 francos pedidos, e a Comissão de Arte comprou este quadro, embora o preço tenha passado do limite que ela mesma tinha fixado. No mesmo dia, Basileia desistiu de A família Soler, de Picasso, porque essa compra consumiria quase todo o crédito. Basileia tem mais dois quadros de Modersohn-Becker, comprados em 1939 por meio de Buchholz, e um deles, Menino com gato, também tinha sido retirado do Museu Kestner.

15. Ecce Homo — Lovis Corinth
Ao abrir em Munique, em 19 de julho de 1937, a exposição “Arte Degenerada”, o pintor Adolf Ziegler disse que Corinth, “depois do segundo derrame, só produzia borrões doentios e incompreensíveis”. Entre os sete quadros de Corinth na exposição havia três da Galeria Nacional de Berlim, e um deles era Ecce Homo. O quadro foi retirado da galeria em 7 de julho, na primeira onda de confiscos, quando se reuniam obras para Munique. Ao todo, 45 quadros de Corinth foram retirados de museus alemães. A curadora do museu de Basileia Eva Reifert disse em 2017 que, ao que parece, não havia na época consenso sobre se esse quadro devia ser considerado “degenerado”, embora ele apareça em muitas fotografias da exposição de Munique.
Corinth o pintou em 1925, no último ano de vida (sobre ele, ver o nº 11), e, segundo o museu, os modelos foram conhecidos dele. Três figuras em tamanho natural estão lado a lado, ombro com ombro, cortadas pela borda inferior na altura dos joelhos. No centro está um Cristo jovem, com coroa de espinhos e túnica vermelha sem mangas, o rosto, os ombros e os braços salpicados de sangue, os pulsos cruzados amarrados com uma corda grossa. À esquerda, Pilatos, numa bata branca pintada com alvaiade e tons azuis frios, com uma faixa amarela na testa, aponta para Cristo com a palma aberta. À direita está um soldado careca de armadura de aço escura, e das mãos amarradas de Cristo uma corda vai até ele. O vermelho, o cinza-escuro e o branco ficam em três grandes manchas, a pincelada é rápida e espessa em toda parte, e o que está pintado com mais cuidado é o rosto de Cristo. No canto superior esquerdo, Corinth escreveu na tela “Ecce Homo. / Lovis Corinth / 1925”.
Depois da morte de Corinth o quadro ficou com a viúva, em 1929 foi comprado pela Galeria Nacional, e em agosto de 1938, já confiscado, foi parar no depósito de Schönhausen. No fim de maio de 1939, Georg Schmidt esteve em Berlim e, com o marchand Karl Buchholz, escolheu obras que depois foram mandadas a Basileia para avaliação. Em 12 de junho, Buchholz adquiriu Ecce Homo do Ministério da Propaganda para Basileia, e depois do leilão de Lucerna a Comissão de Arte escolheu entre as obras enviadas mais 12, e este quadro estava entre elas. Em 1949, Paul Ortwin Rave, que dirigia a Galeria Nacional quando o quadro foi retirado de lá, pôs Ecce Homo na capa do seu livro A ditadura da arte no Terceiro Reich, um dos primeiros livros sobre a campanha contra a “arte degenerada”.

Emigrados doam, o museu compra o que deixou escapar (1941–1977)
16. Ta matete (O mercado) — Paul Gauguin
Robert von Hirsch deu este quadro a Basileia quando recebeu a cidadania suíça, em 1940, e ele entrou no inventário do museu em 1941. Hirsch nasceu em 1883 em Frankfurt, numa família judia assimilada, em 1898 entrou na empresa de couros de parentes seus em Offenbach, em 1913 recebeu do grão-duque de Hesse o “von” de nobreza e em 1917 se tornou o único dono da empresa. Começou a colecionar arte por volta de 1907, e sua coleção tinha peças medievais de ourivesaria e esmaltes, desenhos de Dürer, manuscritos e pintura francesa moderna. Planejava uma grande doação aos museus de Frankfurt, mas em 1933, depois da chegada dos nazistas ao poder, emigrou para Basileia, onde a empresa tinha uma filial, e levou para lá toda a coleção, menos um quadro (sobre ele, ver o nº 19).

Gauguin pintou Ta matete em 1892, na sua primeira estada no Taiti. Em taitiano, o título quer dizer “o mercado”, e é assim que o museu chama o quadro. Ele também é conhecido como Hoje não iremos ao mercado, título que não traduz as palavras taitianas. Cinco mulheres de vestidos longos de gola alta estão sentadas em fila num banco verde, cada vestido de uma só cor chapada, de um verde quase preto à esquerda a um amarelo à direita. As cabeças aparecem ora em perfil estrito, ora viradas, as mãos erguidas se abrem mostrando as palmas, e só a mulher do meio olha direto para o espectador. Gauguin construiu essa fila a partir de uma pintura egípcia, a cena de banquete do túmulo do escriba Nebamun, no Museu Britânico, de que tinha levado uma fotografia para o Taiti. Pintou sobre juta, e a trama grosseira aparece através da tinta fina e fosca em todo o quadro.
Em Basileia, Hirsch se casou em 1945 com a escultora Martha Dreyfus-Koch e, em 1955, recebeu o doutorado honoris causa da Universidade de Basileia. Com o tempo, porém, ele se desentendeu com o museu. Hirsch achava que a arte contemporânea devia ser comprada por colecionadores particulares e que os museus deviam ficar com o consagrado, e quando o Kunstmuseum, sob o diretor Franz Meyer, começou a comprar a nova pintura americana, desistiu da ideia de deixar toda a coleção para a cidade. Morreu em Basileia em 1º de novembro de 1977, e a maior parte da coleção foi vendida, conforme o seu testamento, em 1978, num leilão da Sotheby’s em Londres.
17. Mulher com bandolim (segundo Corot) — Juan Gris
Entre 1860 e 1865, aproximadamente, Camille Corot pintou no ateliê uma modelo em traje italiano, sentada com um bandolim no colo, olhando-o pensativa, e o quadro depois ganhou o apelido de A sonhadora com bandolim. Em 1916 ele estava em Budapeste, na coleção do barão Mór Lipót Herzog, e pertence hoje ao Museu de Arte de Saint Louis. Em setembro daquele mesmo ano de 1916, Juan Gris pintou a partir dele o seu próprio quadro.
Gris repetiu os detalhes de Corot: a faixa no cabelo com uma fileira de contas miúdas, o brinco de pérola, a camisa branca sob o corpete escuro, o bandolim atravessado sobre os joelhos, com o corpo à esquerda e o braço à direita, e a inclinação da cabeça. Da cor de Corot quase nada ficou, e o quadro é pintado em cinza-ardósia, preto, branco-giz, verde-garrafa escuro e marrom-ferrugem. O rosto está dividido numa metade clara e outra escura, um dos olhos é contornado por uma fina linha branca, o bandolim virou uma tábua marrom-ferrugem com cordas riscadas em branco, e as pontas redondas das mangas brancas são sombreadas com um pontilhado cinza miúdo, que lembra tinta borrifada.

Gris nasceu em Madri em 1887 e morava em Paris desde 1906. Em 1916, o seu marchand, Daniel-Henry Kahnweiler, súdito alemão, passava a guerra na Suíça, e em maio Gris assinou contrato com Léonce Rosenberg. No mesmo ano começou a pintar figuras e fez desenhos a partir de Rafael, Velázquez e Cézanne.
O quadro foi doado a Basileia por Raoul La Roche, filho de um banqueiro de Basileia, que de 1911 a 1954 trabalhou num banco em Paris. A partir de 1918 ele ficou amigo do arquiteto Le Corbusier e do pintor Amédée Ozenfant, que o ajudaram a colecionar os cubistas, e Le Corbusier construiu para ele e para a coleção a Villa La Roche, em Auteuil, bairro de Paris. Em 1952, 1956 e 1963, La Roche deu a Basileia 90 obras cubistas e puristas, e depois disso as pessoas passaram a ir a Basileia para ver cubismo. Gris pintou Mulher com bandolim a óleo sobre compensado, e através da tinta cinza e fina do fundo aparecem as fibras verticais da madeira, sobretudo no canto superior direito.
18. A margem do rio — Henri Matisse
Em 30 de junho de 1939, em Lucerna, o diretor do museu de Basileia, Georg Schmidt, viu A margem do rio, de Matisse, ser arrematado como lote 96 por Max Mueller, de Ascona. Basileia comprou naquele dia oito outras obras. O quadro pertencia ao Museu Folkwang, e o fundador desse museu, Karl Ernst Osthaus, o tinha comprado em fevereiro de 1908 na galeria parisiense Bernheim-Jeune, poucos meses depois de adquirir o primeiro quadro de Matisse a entrar no acervo de um museu. Depois da morte de Osthaus, a coleção passou em 1922 de Hagen para Essen, e em 1937 o quadro foi retirado de lá como “arte degenerada”.

Matisse o pintou na primavera de 1907 em Collioure, aldeia de pescadores no Mediterrâneo, perto da fronteira espanhola, onde naqueles anos ele e André Derain chegaram ao fauvismo. Pela borda de cima se estende um galho com grandes folhas verde-escuras em forma de amêndoa. Os troncos finos das árvores são pintados com linhas vermelho-tijolo e rosa, e abaixo da faixa vermelho-alaranjada da margem distante eles continuam na água azul como reflexos, de modo que cada árvore está desenhada duas vezes. O verde, o violeta, o vermelho-alaranjado e o azul ficam lado a lado em manchas puras, sem preto. Junto à borda direita, entre os troncos, está sentada uma figurinha de chapéu de palha, vestida de lilás-pálido, com algo branco no colo. A assinatura, no canto inferior direito, foi traçada em azul sobre a água: “Henri-Matisse”.
O museu não conseguiu identificar os donos do quadro entre 1939 e 1953. Em 1953, 14 anos depois de Lucerna, ofereceram a Basileia comprá-lo de uma coleção particular, por meio do marchand Ernst Beyeler, e Schmidt, ainda diretor, o chamou de “obra especialmente preciosa” do período fauvista clássico de Matisse.
19. O julgamento de Páris — Lucas Cranach, o Velho
Em 1933, O julgamento de Páris constava da lista alemã de obras de arte de valor nacional, e quando Robert von Hirsch se mudou de Frankfurt para Basileia (sobre ele, ver o nº 16), não lhe permitiram levar o quadro junto com o resto da coleção. Em março de 1936 o quadro chegou a Hermann Göring por meio do marchand berlinense Johannes Hinrichsen, e na base de dados da coleção Göring a transação está registrada como venda forçada. Costuma-se contar outra versão, embora os historiadores não tenham encontrado nenhum documento que a confirme. Segundo ela, Hirsch teria dado o Cranach a Göring como pagamento pela permissão de levar o resto. Em 1937, Göring emprestou o quadro para uma exposição de Cranach em Berlim. Depois da guerra, o quadro foi restituído a Hirsch em 31 de agosto de 1954, e em 1977 chegou a Basileia como doação de Martha e Robert von Hirsch.
À esquerda está sentado Páris, de armadura prateada, cabelo crespo e barba, com um chapéu de plumas brancas de avestruz e uma espada aos pés. De pé, acima dele, está Mercúrio, um velho de barba grisalha numa armadura fantástica cor de cobre alaranjado, coberta de conchas e espirais, com uma esfera de vidro na mão. À direita estão as três deusas, nuas, só com véus transparentes que se veem como linhas finas junto aos quadris e aos braços. A do meio está de costas, com um largo chapéu vermelho e uma pesada corrente de ouro, e olha por cima do ombro direto para o espectador. Do alto de uma nuvem, Cupido faz pontaria nelas, e atrás das árvores se veem um castelo num rochedo, uma cidade e montanhas azuis. Numa pedra sob o pé da deusa da direita, Cranach pôs “15” e “28” e, entre os dois números, a marca da sua oficina, uma serpente alada.
No verso do painel ficou uma etiqueta datilografada da exposição de Berlim de 1937, e nela o dono do quadro aparece como “ministro-presidente Göring”.

Uma compra reexaminada (1940, 2021–2023)

20. A musa inspirando o poeta — Henri Rousseau
Em 12 de junho de 1940, Charlotte von Wesdehlen escreveu de Genebra a Alice Bernoulli, mulher do marchand Christoph Bernoulli, de Basileia, listou 12 quadros seus e acrescentou que gostaria de vender um agora, “porque é necessário”. Nascida Reichenheim, judia, filha de colecionadores berlinenses, ela tinha sido casada com o banqueiro Paul von Mendelssohn-Bartholdy, e em 1913 o casal comprou este quadro do marchand parisiense Paul Rosenberg. Depois do divórcio, em 1927, o quadro ficou com ela. Em 1930 ela se casou com o conde von Wesdehlen, capitão de cavalaria prussiano reformado, natural de Neuchâtel, e se tornou cidadã suíça. O quadro atravessou a fronteira suíça em Brig em 5 de outubro de 1935, a julgar pelo selo da alfândega no verso da tela, e a própria Charlotte deixou Berlim em 1938. O Reich lhe cobrou o imposto sobre o patrimônio judeu e o imposto de saída do país, e neles se foi toda a sua fortuna pessoal.
Rousseau, autodidata e ex-funcionário da alfândega municipal de Paris, pintou o quadro em 1909, um ano antes de morrer, por encomenda de Guillaume Apollinaire, e o quadro é um retrato duplo: o poeta está de pé ao lado da sua companheira, a pintora Marie Laurencin, representada como Musa. Na primeira versão, que está no Museu Púchkin de Moscou, Rousseau pintou goivos no lugar dos cravos-de-poeta, flor que também em francês tem o nome de “cravo do poeta”, e Apollinaire brincou com isso num jornal. Na segunda versão, a de Basileia, diante das duas figuras há uma fileira de hastes altas de cravos-de-poeta, com cabeças achatadas de florzinhas rosadas, brancas e vermelho-escuras. A Musa, numa longa veste cinza-lilás, ergue a mão direita com o indicador apontado para cima, e tem flores escuras com folhas verdes no cabelo e no pescoço. Apollinaire, de terno preto, olha para a frente, com uma pena branca na mão direita e uma folha de papel enrolada na esquerda, e acima deles os galhos das árvores se juntam num arco de folhas contornadas uma a uma. Apollinaire lembrava que, na primeira sessão, Rousseau mediu o nariz, a boca, as orelhas, a testa, as mãos e o corpo inteiro dele e passou as medidas para a tela em escala reduzida. Em 1913, um ano depois de romper com Laurencin, Apollinaire deixou o quadro com Rosenberg para ser vendido.

No verão de 1940, o diretor do museu, Georg Schmidt, primeiro disse a Charlotte von Wesdehlen que o museu não tinha dinheiro, porque tudo ia para a retirada da coleção para depósitos protegidos contra bombardeios, e no fim de julho foi ele mesmo encontrá-la em Genebra. Em 1º de agosto escreveu a Bernoulli que a tinha trazido “das alturas do falsete para o chão da realidade”, que ela, ao que parecia, “precisava vender a qualquer preço” e que, se ele pusesse 12.000 na mesa, ela os agarraria. Ao colecionador Rudolf Staechelin, que tinha adiantado o dinheiro ao museu, Schmidt escreveu que “todos os envolvidos sabem que este é, no fundo, um preço vergonhosamente baixo” por uma das grandes obras clássicas de Rousseau. Na ata da Comissão de Arte de 2 de setembro de 1940, Schmidt chamou essa oferta de um dos “golpes de sorte que eram de esperar em consequência da guerra”. O museu pagou 12.000 francos, embora, em tempos normais, segundo o próprio Schmidt, o quadro alcançasse de 30.000 a 40.000. Charlotte von Wesdehlen não se queixou depois dessa venda e morreu em Genebra em 1946.
Em 2001, a Comissão Independente de Especialistas da Suíça, que estudou o papel do país na Segunda Guerra Mundial, analisou essa compra como caso exemplar de “bens de refugiados”. Foi assim que a comissão chamou o que os emigrados da Alemanha vendiam em países fora do alcance dos nazistas, para distinguir esses bens da arte saqueada. Em 2021, advogados que representavam um dos sucessores de Charlotte von Wesdehlen pediram ao museu que revisse a transação, e em 2022 exigiram a devolução do quadro. Em 20 de dezembro de 2023, a Comissão de Arte aprovou uma decisão de 54 páginas. Nela se diz que no comportamento dos funcionários do museu da época “não se pode deixar de notar um assustador desrespeito pela pessoa de Charlotte von Wesdehlen e uma considerável frieza” e que isso “faz parte da história do Kunstmuseum de Basileia”. A comissão reconheceu que a venda estava ligada à perseguição, porque sem ela a venda não teria acontecido, e o dinheiro era necessário a Charlotte von Wesdehlen para viver. Em 2020, o museu já tinha feito um acordo semelhante sobre gravuras compradas em 1933 no leilão da coleção de Curt Glaser. A comissão se recusou a devolver a Musa, mas apoiou negociações sobre uma compensação financeira “em valor adequado”.
O que mais ver
A cidade comprou dois quadros de Picasso, Os dois irmãos e Arlequim sentado, depois que os habitantes de Basileia votaram a favor dessa compra num referendo, em 1967, e Picasso, em agradecimento, deu ao museu mais quatro obras. Das compras do verão de 1939, a coleção tem A noiva do vento, de Oskar Kokoschka, A pitada de rapé, de Marc Chagall, e Dois gatos, azul e amarelo, de Franz Marc. De Holbein, vale a pena ver ainda os retratos de Erasmo de Roterdã de 1523 e 1532 e o díptico de juventude de Meyer zum Hasen, de 1516. Em O idiota, o príncipe Míchkin se lembra de outro quadro que viu em Basileia, e nele se costuma reconhecer A decapitação de São João Batista, de Hans Fries, de 1514, que também pertence ao museu. No Gabinete de Gravuras, onde está a maior parte das mais de 300 mil obras do museu, também estão os desenhos do gabinete dos Amerbach.


































































